sábado, 2 de março de 2013

"O que é que este terramoto provocou em nós?"


RR - No dia em que Bento XVI se despediu dos fiéis, os jovens que acompanharam a sua vinda a Portugal em 2010 voltaram a encontrar-se, desta vez numa igreja de Lisboa. À saída, cada um recebeu um cartão com o nome de um dos cardeais do conclave, que inclui uma oração especial
 
São 19h00 em Portugal, 20h00 em Roma, e, a partir deste momento, a Igreja entrou em Sede Vacante." Foi uma voz grave que ressoou dos altifalantes montados à porta da Igreja da São Domingos, em Lisboa, a chamar a multidão que se juntou à porta para a missa de agradecimento a Bento XVI, agora Papa Emérito. Passadas as faixas azuis penduradas à entrada, a visão é a de uma igreja que parece tão pequena quando é na realidade muito grande, porque há mais de duas mil vozes a dizer "obrigado".
No dia em que Bento XVI deu a derradeira bênção nas varandas de Castel Gandolfo, os jovens que o acompanharam na sua vinda a Portugal em 2010 voltaram a encontrar-se para lembrar o pontificado que agora termina. Miguel Machado, da organização, explica que vêm de vários movimentos e sectores diferentes - "são pessoas mais conservadoras, mais progressistas, que querem coisas mais malucas ou mais sérias" - e que pretendem "apagar-se" para ficarem unidos perante o Papa.
A celebração começou com a projeção de um vídeo em dois ecrãs gigantes montados em cada um dos lados do altar, um filme com momentos da passagem do Papa por Portugal, da sua missa no Terreiro do Paço e a lembrar a força dos 11 mil jovens que caminharam nesse dia pela Avenida da Liberdade ao encontro de Bento XVI. No final do vídeo, sobe ao ambão um rapaz, que diz simplesmente "estamos aqui para agradecer ao Papa, não é mais que isto".
Seguiu-se a missa, sempre com pessoas a chegar, sentadas nos bancos, no chão, em pé, e cada vez de idades mais variadas. Mais perto da porta, juntaram-se pessoas mais velhas, casais e até curiosos que se deixaram ficar.
"A notícia da resignação apanhou-nos a todos de surpresa, de alguma maneira estremeceu-nos, acordou-nos. O que é que este terramoto provocou em nós?", perguntou à congregação o padre Diogo Barata, um dos muitos alinhados no altar. "Em primeiro lugar, uma onda espontânea de agradecimento, com o coração", prossegui o sacerdote. Depois, o padre lembrou os milhares que estiveram com Bento XVI no Terreiro do Paço e lançou o desafio: "Dez por cento de 11 mil são 1.100. Dez por cento de 1.100 são 110. O que aconteceria se 110 de vocês fossem santos?".
O padre Diogo Barata deixou mais algumas ideias aos jovens, lembrou o pontificado de Bento XVI e terminou com o mote do movimento, exibido num enorme estandarte pendurado do coro da igreja: "Eu acredito. E quem acredita em Deus nunca está só".
A música começou a ecoar na missa. Foram precisos dez pontos diferentes para dar a comunhão. No final, ouviu-se um pedido feito por um dos presentes. "Queremos juntar-nos quando for o 'habemus papam', só não sabemos bem como. Façam por estar atentos às redes sociais."
Centenas de pessoas deixaram então a igreja, mas outros ficaram em oração pelo Papa Emérito e pelo conclave. À saída, cada um recebeu um cartão azul com o nome de um dos cardeais que vai participar no conclave, com uma prece ao Espírito Santo pela "assistência aos que têm a missão de eleger o sucessor de Pedro".
 
 
"Tudo o que rompe e abre janelas é ótimo" 

No exterior da Igreja, o coração de alguns abriu-se. "Bento XVI foi um Papa exemplar, um Papa de todos nós. Foi um pontificado numa altura difícil, principalmente nestes últimos anos, e acho que o seu trabalho, mesmo já numa altura debilitada, foi ótimo", considera Guilherme, um estudante de 22 anos.
Para José Spínola, um seminarista de 28 anos, a resignação foi inspiradora. "Foi um Papa que marcou muito, principalmente agora o pedido de resignação dele. Primeiro, porque não é o habitual, mas principalmente destaco o facto de um homem como o Papa, intelectual como é, ir para um mosteiro viver e dedicar o resto da vida à oração e reflexão. Acho isso muito bonito, é de louvar e dizer 'bendito seja Deus'."
Já Íris, uma decoradora de 49 anos, comoveu-se com a juventude que foi homenagear Bento XVI. "Esta alegria, este entusiasmo… Vermos os jovens dar este apoio lindo é contagiante e é impossível não estar aqui", começa por dizer.
"Vamos orar para que o Espírito Santo ilumine o próximo Papa e que esteja pronto para esta missão que não é fácil. Vemos agora Bento XVI tão cansado e triste… Foi lindo o que ele fez. Ele teve coragem e isso para mim bastou. Uma atitude digna, louvável. Eu estou com ele", conclui.
Para Miguel Machado, da organização, a resignação mexe com a Igreja. "Tudo o que rompe e abre janelas novas na Igreja é ótimo e o que este Papa está a fazer é um sinal para um mundo."
E o que fica deste encontro que juntou tanta gente? Miguel Machado responde. "Fica uma grande esperança no futuro, na Igreja jovem, que anda de 't-shirt', e isso é bonito."
 
 
 

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