No início deste ano de 2012, transcrevemos a homilia do Sr. Bispo de Aveiro proferida ontem, dia 1 de Janeiro, na Sé Catedral de Aveiro e que podemos considerar como uma Mensagem de Ano Novo.
1. Neste primeiro dia do Ano, na oitava do Natal, a Igreja contempla, sem desviar os olhos de Jesus, Aquela que Deus escolheu para que o mistério da encarnação do Verbo se tornasse possível. O Filho de Deus encarnou, por obra do Espírito Santo, de Maria, sempre virgem, a Mãe de Deus.
Segundo o texto do evangelho, os pastores foram as primeiras testemunhas atentas aos acontecimentos de Belém e os primeiros contemplativos do nascimento do Filho de Deus. «Os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino» (cf. Lc 2, 16-21). A atenção é sempre o melhor caminho para nos aproximarmos do mistério de Deus.
A história da humanidade, no seu percurso, vai-nos mostrando que o céu tem sempre algo a dizer à terra e que o mistério de Deus se manifesta às pessoas de coração atento, disponível e capaz de ver, ler e entender os sinais em que Deus se revela: sinais de luz a iluminar as trevas da noite. Os tempos de crise podem ser, paradoxalmente, tempo de graça mais abundante e de atenção maior aos sinais de Deus.
Os pastores fizeram-se ao caminho para procurar quanto lhes fora anunciado. Encontraram uma Mãe com o seu Filho recém-nascido e José, seu Esposo. Parece-lhes estranho o lugar mas a surpresa face ao ambiente encontrado não tolda nem perturba a alegria sentida diante de uma vida que nasce, envolvida num anúncio cheio de encanto, de beleza e de mistério. Os pastores fazem a experiência tão necessária no nosso tempo, de verem que o céu se abre sobre a terra, a sua terra, e que por isso torna esta terra abençoada e cheia de luz e de verdade. A experiência dos pastores é a experiência dos contemplativos de Deus e dos peregrinos dos lugares santos de hoje; é a experiência de quantos procuram, encontram e contemplam o amor de Deus e o sentem espelhado em tantos corações humanos e solidários; é a experiência dos que vivem a alegria da fé e a comunicam aos outros com entusiasmo; é a experiência dos que sentem a sua força e confiança alicerçadas em Deus, mesmo quando vacilam as seguranças humanas e se desfazem as certezas do mundo; é a experiência dos que se sabem filhos de Deus, herdeiros da vida e construtores da felicidade, como nos diz S. Paulo, na Carta aos Gálatas, da segunda leitura.
2. Maria conservava e meditava tudo no seu coração de Mulher e de Mãe, para acolher em si o mistério de Deus, que, dia a dia, até ao fim dos tempos, melhor do que ninguém, ela nos sabe revelar. Uma das dificuldades maiores em tempo de pressa, de relativismo de valores e de superficialidade das razões de viver, como é o nosso tempo, é a falta de paz interior, de disponibilidade de escuta e de atenção, de tempo para acolher cada pessoa como um dom e um irmão e de espaços para meditar os mistérios de Deus.
No seu silêncio de Mãe, que ouve sem perguntar e que fala sem dizer palavras, como só as Mães sabem fazer, Maria conduz a história da Igreja e é bênção para o povo cristão e para a humanidade. Invocámo-la neste primeiro dia do Ano para que abençoe a Igreja de Aveiro e o tempo que nos é dado viver e dele faça um tempo de justiça e de paz, de bênção e de graça, de saúde e de esperança, um verdadeiro tempo de bem-aventurança.